sábado, 26 de abril de 2008

A Casa do Barqueiro em Amieira do Tejo

Assembleia Geral da Misericórdia de Amieira

Correcção de notícia publicada
Sobre a Assembleia Geral realizada no passado dia 8 de Março, importa corrigir uma notícia que não corresponde à verdade sobre a votação e discussão das contas do exercício de 2007, que foram aprovadas por unanimidade e não com um voto contra, como na altura escrevi neste jornal. Sobre o assunto quero apresentar as minhas desculpas.
Quanto à questão da correcção das contas de 2001, estas haviam sido corrigidas do reembolso efectuado. Assim, o resultado líquido positivo apurado e aprovado naquele ano é de mil setecentos e cinquenta e cinco euros e dezassete cêntimos, equivalentes a 351.869 escudos e 50 centavos.
Foi este exercício infuenciado pelo débito de doze mil e trezentos euros, passando o resultado a ser negativo no valor de dez mil quinhentos quarenta e quatro euros e oitenta e cinco cêntimos.
Auscultada a Assembleia Geral, esta aprovou o procedimento de correcção das contas, tendo o associado senhor Olívio Marques votado contra, referindo que pretendia, face às explicações dadas pelo senhor Provedor relativas ao tipo de gestão efectuada durante muitos anos, fosse feita uma auditoria às contas referidas.
O Provedor sobre esta intenção adiantou que não era da mesma opinião, já que a auditoria já havia sido feita por si e que estava na posse de todos os procedimentos irregulares de gerência efectuados ao longo dos anos e que uma auditoria externa não conduziria a resultado diferente do já conhecido.
Foi aqui que se registou o voto contra.
Jorge Pires in "Jornal de Nisa" - Nº 253 - 16/4/08

terça-feira, 22 de abril de 2008

O Tejo e a neblina eterna

Seis anos. Seis anos eram os que tinha aquele menino que pulou da cama a meio da noite quando o pai se apressava para se por a caminho.
Eram 4h30 de uma madrugada tépida de verão. As pestanas tentavam teimosamente fechar-se sobre os seus olhitos baços de sono, e a permanente lembrança do aconchego dos lençóis adensavam-lhe ainda mais a vontade de ficar na cama. Porém, a carroça de grandes rodas de madeira e ferro, rapidamente se pôs ruidosamente em marcha pelos caminhos, umas vezes de macadame e outras vezes, as mais das vezes, apenas de terra e calhaus.
Ver o rio Tejo pela primeira vez e mesmo passar para lá dele, fazer a travessia do rio lá na Barca da Amieira, juntamente com a carroça e o macho e uma data de gente nunca antes vista, era uma odisseia a que nem todas as crianças tinham a oportunidade de ter acesso. Daí que, todos os sacrifícios valessem a pena, ainda que isso implicasse saltar inusitadamente da cama a meio da noite em vez de ficar comodamente deitado até para lá do nascer do sol.
A casa, no Vale da Feiteira, na Comenda, rapidamente desapareceu do alcance da vista, apesar da marcha pachorrenta da carroça que se prolongou por tantas horas que mais parecia que os levava em busca de algum lugar num qualquer fim do mundo imaginário.
Depois, finalmente, a povoação de Amieira do Tejo primeiro, uns longos metros de um velho caminho feito de pedaços de granito, e logo o cais, ali ao fundo, onde o caminho acaba e o rio começa.
- Que barca enorme! Exclamou ele admirado com a dimensão da jangada que haveria de os levar a bom porto já na outra margem do grande rio tão enigmático como as nuvens brancas quase eternas que se avistavam a quilómetros de distância a pairar sobre o vale em que o Tejo desliza; ora calmamente, ora furioso e revolto em direcção a S. Julião da Barra.
- Que nuvem é aquela pai? Aquela ali, tão branca, que se estende ao longo de todo aquele vale!
- Estou a ver. – Aquela nuvem está ali todos os dias, ou quase, é a neblina provocada pela evaporação das águas do Tejo, sempre que determinadas condições atmosféricas se conjugam. E elas conjugam-se muitas vezes!.
- Isso quer dizer que é já ali o Tejo?
- É o Tejo sim, mas não é já ali!. Apenas parece que é já ali!. Vais ver que é muito mais longe do que parece!.
À hora marcada, o barqueiro mandou subir; primeiro a carroça e a mula, depois umas dezenas de pessoas que esperavam pacientemente pelo momento de embarcar, como se fossem atravessar o mar em busca da terra prometida.
A canzoada não parava de ladrar a toda a gente que chegava, mas no momento de embarcar, também eles subiram à barca. Aconchegaram-se a um canto de onde observavam ininterruptamente a corrente. Todas as bocas caninas se emudeceram tão estranhamente que mais parecia haver ali um prenúncio de tragédia. Ou será que os cães, ao contrário das pessoas que ali iam, sabiam por instinto que ali passara o cortejo fúnebre de uma das mais conhecidas e ilustres rainhas de Portugal, a rainha Santa Isabel, aquando da transladação do seu féretro de Estremoz para Coimbra, e por isso faziam reiteradamente aquele silêncio?.
As mãos do barqueiro pareciam de ferro, e com elas ele empunhou uma vara enorme que ia firmando no fundo do leito fazendo deslocar a barca até à margem oposta, lá onde o Alentejo acaba e a Beira principia.
Três ou quatro impulsos da grossa vara, e eis a Beira Baixa, ali, no cais do lado norte do rio.
A Estação do "Fratel – Barca da Amieira", servia os passageiros da linha da Beira Baixa que moravam de um e outro lado do caudal, e estava agora ali, à mercê dos agora desembarcados mal puseram os pés em terra firme na margem direita do rio.
Os pimentos vermelhos que a ruidosa carroça transportava destinavam-se à Fábrica de São José das Matas onde iriam ser moídos e transformados em pimentão, e era nestes meios rudimentares de transporte que eram carreados desde as terras de produção nas Polvorosas e noutras herdades das redondezas.
As giestas floridas de amarelo que cobriam os campos na primavera, há muito que se haviam transformado em arbustos apenas verdes e fecundos cobertos de vagens repletas de sementes prestes a eclodir.
As flores brancas das estevas haviam perdido todas as pétalas e estas eram agora apenas plantas sequiosas, de folhas luzidias e peganhentas, e das suas belas flores alvas não restavam agora senão as coroas esturricadas pelo sol.
Os tojos e os sargaços também se haviam rendido ao implacável rigor do estio, e todas as flores das papoilas vermelhas haviam caducado de vez e já se haviam despedido até à próxima primavera.
Quando finalmente se avistou a Fábrica de pimentão já o sol se aprestava a “afundar-se” para lá da linha do horizonte.
O animal de jugo estava completamente exausto, e o seu pelo repassado de suor mais parecia ter atravessado uma tromba de água, e mesmo assim era como que voasse. Parecia ter a certeza de que era ali que se iria livrar da pesada carga que o atormentava desde alta madrugada, ainda que algumas breves paragens pelo caminho lhe tivessem permitido retemperar as forças e aconchegar o estômago com algumas favas e alguns grãos de aveia que sorvia de um saco se serapilheira em que enfiava o focinho até à orelhas repescando minuciosamente cada pequeno grão.
O miúdo de seis anos, vencido pelo cansaço, depressa adormeceu, mau grado a dureza do lastro da carroça.
O regresso a casa aconteceu já noite adentro, quase à mesma hora a que se iniciara a viagem no dia anterior.
As nuvens brancas continuavam lá, e o miúdo de seis anos, revivia a lembrança de toda aquela novidade interrogando-se se; a barca e aquele “estranho” barqueiro que usava a força dos seus braços como meio de locomoção serrando os grossos punhos em volta de uma espessa vara que fundeava vigorosamente no leito sinuoso do rio, lá estaria também e até quando.
40 anos mais tarde voltei ao rio. Voltei ao velho cais. Sim, voltei!
Já perceberam que era eu mesmo, aquele miúdo de seis anos que saltou da cama a meio da noite para ir ver o Tejo e aquela estranha neblina que se avistava de longe parecendo querer manter dissimulado o rio lá bem no fundo daquela ravina, mas que ao mesmo tempo o denunciava com a sua quase eterna presença.
Se subirmos ao Alto Pina, na Atalaia, e estendermos o olhar para norte na direcção da Ladeira, o mais provável é podermos observar aquele manto branco que em certos dias nos turva a visão a ponto de nos parecer ver uma cordilheira de montanhas.
40 Anos depois retomei o percurso no mesmo sítio, e a viagem não demorou senão uns 25 minutos. De automóvel claro!.
O Castelo de Amieira continuava lá como antes e o cais da “Barca da Amieira” também.
A barca estava em seco, não sei se “moribunda”, e não havia sinais de haver por ali barqueiro algum de grossos braços que me levasse ao outro lado do rio.
A neblina quase eterna que se avistara de longe desde que o dia clareara já se havia dissipado, mas na manhã de amanhã ela irá marcar presença no mesmo lugar.
Vá-se lá adivinhar se os cães, se ainda os houver, irão parar misteriosamente de ladrar perante a eminência do embarque, e vá-se lá adivinhar se não haverá gente, nem carroças nem mulas, nem outro vigoroso barqueiro que os leve a todos a bom porto.
João Margarido Chamiço in http://rosa_dos_ventos.blogs.sapo.pt

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A Festa dos Passos - Poesia Popular

Pelo segundo ano consecutivo
O Senhor dos Passos saiu à rua
Esta festa só é possível
Com a minha presença e com a sua

Para a tradição não acabar
À Amieira temos de voltar
Para o ano se Deus quiser
Com a presença de todos queremos contar
Os Passos da Amieira
São uma antiga tradição
É uma festa graciosa
Que nos enche a alma e o coração.

Aos senhores padres
O nosso muito obrigado
Pois se não fossem eles
A tradição não tinha continuado.
Um grande Bem-Haja a todos os que marcaram presença em mais uma festa do Senhor dos Passos em Amieira.
Ana Paula Nunes Horta

terça-feira, 8 de abril de 2008

Lembrando João Diniz Fragoso


Monumentos Nacionaes / O Castelo de Amieira
"A história da nacionalidade portuguesa encontra-se gravada nas fortes muralhas dos castelos – testemunhas mudas de horas de heroísmo com curiosas lendas, em que são postas em foco as qualidades de lealdade e bravura dos nossos antepassados.
A darmos crédito à opinião de Giner de los Rios, será difícil encontrar em parte alguma, tão grande número de castelos como em Portugal. Também segundo Dieulatoy, merecia Portugal o nome de Castela mais ainda do que o centro de Espanha.
Quem de Lisboa se dirija para a Beira baixa, saia na estação de Barca da Amieira e daí desça até ao Tejo, encontrará uma barca de passagem, que é um dos pontos de união entre a Beira e o Alto Alentejo.
Aí mesmo foi o rio atravessado pelo préstito fúnebre da Rainha santa Isabel na sua trasladação de Estremoz a Coimbra, o que leva o povo a dizer que nesta passagem não há memória de ter acontecido infortúnio algum. Para lá do rio, já no Alto Alentejo, transposta uma breve colina, fica Amieira – terra a que D. Manuel deu foral em Lisboa em 15 de Novembro de 1512.
Amieira tem o seu dia de gala na festa de N. Srª da Sanguinheira – com grinaldas de cor por todos os lados, desde os lenços policrómicos das raparigas do campo às bandeirolas festivas ruas em arco.
Foi em 1642 que D. João IV deu à Misericórdia as fazendas da capela da Senhora com obrigação do reparo e conservação das várias capelas da freguesia. Numa zona do Alto Alentejo que foi teatro de luta onde Nuno Álvares tão galhardamente pelejou, Amieira tem também o seu castelo -atalaia vigilante que o tempo vai corroendo.
Este castelo, de quatro torres ligadas por fortes muralhas onde se rasgam seteiras “forte e mui formoso” como nos diz Oliveira Martins, foi de bastante importância, bem vincado pela lista de alcaides-móres que teve, tendo sido fundado pelo prior do Hospital D. Álvaro Gonçalves Pereira – pai de Nuno Álvares – que ali morreu em 1378.
Nun´Álvares, que então andava pelo Minho, veio expressamente à Amieira para assistir às exéquias e ali se encontrou com todos os seus irmãos, que eram nada menos de dezoito, nove homens e nove mulheres. Foram feitas exéquias solenes, sendo o defunto levado processionalmente de Amieira a Flor da Rosa, onde houve segunda apoteose antes de repousar frei Álvaro Gonçalves para sempre no seu leito de pedra.
Ainda a propósito da data de 1378, indicada relativamente à morte de frei Álvaro, é curioso ler o que Oliveira Martins escreveu sobre tal dizendo em 1382 ainda ele existia e relatando mais, que “na era de 1420 aparece uma doação de frei Álvaro aos ermitães da Agoa das Infantas de uma cova na egreja de santa Maria de Portel.”
À parte a acção do tempo que em monumentos desta ordem impõem sempre o seu estigma de destruição, também a gente menos culta tem ajudado o tempo nesse desgaste, tirando esta ou aquela pedra para outras construções, arrumando e desarrumando a seu belo critério, numa acção que seria totalmente criminosa, se a maior parte das vezes não fosse ignorante.
No entanto, ainda hoje este castelo mostra uma imponente beleza, recortando no azul as suas fortes torres, aqui e além de ameias esboroadas, e que presentemente se estão reconstruindo.
É porém sempre delicado este problema de reconstruções, principalmente quando se trata deste género de arquitectura militar obedecendo as leis fixas do tempo.
Não será já bastante o conservar?
O varandim (será isto) há pouco construído no interior do castelo de Amieira é uma nota de desarmonia no conjunto da construção. Nada explica, nem tem ligação alguma, o “enxerto” à “moda do Alentejo”, feito numa fortaleza que foi testemunha das horas heróicas de Nun´Álvares.
Dinis Fragoso (1930)