OPINIÃO: Liberdade para pensar
A caça aos livros não é um fenómeno de hoje nem um exclusivo
de determinadas geografias ou regimes políticos. Dados de associações
internacionais do setor apontam para um aumento da perseguição a autores e
livreiros, que não pode ser dissociado do crescimento de políticas extremistas
e antidemocráticas. Em 2025, a Associação Americana de Livrarias registou a
tentativa de retirar mais de quatro mil títulos de bibliotecas. No último ano
letivo, 6.700 livros foram proibidos em escolas dos EUA. As restrições visam
sobretudo personagens LGBTQ+ e questões religiosas ou raciais.
Ataques à atividade criativa, restrições à publicação ou
venda e censura de títulos merecem todo o combate e atenção, mas não deixa de
ser igualmente inquietante assistirmos a fenómenos de autolimitação e
desistência na abertura de janelas para o pensamento. Na prática, é isso que
acontece à medida que pomos os livros de lado. Entre 2005 e 2025, a percentagem
de portugueses que gosta de ler caiu de 72% para 59% e os efeitos dessa
alteração notam-se entre os mais jovens, com os níveis de literacia em leitura
a caírem a pique. Substituir o livro pelo scroll infinito tem os mais diversos
efeitos, mas um vai sendo documentado de forma inequívoca por sucessivos
estudos: estamos mais expostos à desinformação e com menos capacidade de pensar
criticamente. A liberdade para pensar é um valor que depende também das nossas
próprias escolhas.
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Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 5
de agosto, 2026
