OPINIÃO: Liberdade para pensar


Já foi um território associado à liberdade de publicação e de expressão, procurado por leitores que atravessavam a fronteira para encontrar livros considerados demasiado sensíveis na China continental, mas Hong Kong sofreu nos últimos meses três ondas de prisões ligadas a livrarias independentes. Às operações de apreensão de livros, vistas como forma de sufocar a dissidência naquele centro financeiro, seguem-se anúncios de encerramento de alguns destes negócios.

A caça aos livros não é um fenómeno de hoje nem um exclusivo de determinadas geografias ou regimes políticos. Dados de associações internacionais do setor apontam para um aumento da perseguição a autores e livreiros, que não pode ser dissociado do crescimento de políticas extremistas e antidemocráticas. Em 2025, a Associação Americana de Livrarias registou a tentativa de retirar mais de quatro mil títulos de bibliotecas. No último ano letivo, 6.700 livros foram proibidos em escolas dos EUA. As restrições visam sobretudo personagens LGBTQ+ e questões religiosas ou raciais.

Ataques à atividade criativa, restrições à publicação ou venda e censura de títulos merecem todo o combate e atenção, mas não deixa de ser igualmente inquietante assistirmos a fenómenos de autolimitação e desistência na abertura de janelas para o pensamento. Na prática, é isso que acontece à medida que pomos os livros de lado. Entre 2005 e 2025, a percentagem de portugueses que gosta de ler caiu de 72% para 59% e os efeitos dessa alteração notam-se entre os mais jovens, com os níveis de literacia em leitura a caírem a pique. Substituir o livro pelo scroll infinito tem os mais diversos efeitos, mas um vai sendo documentado de forma inequívoca por sucessivos estudos: estamos mais expostos à desinformação e com menos capacidade de pensar criticamente. A liberdade para pensar é um valor que depende também das nossas próprias escolhas.

·         Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 5 de agosto, 2026