sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Manuel Falcão e o castelo de Amieira

Opinião: Que fazer na Cultura?
Uma semana depois de terem surgido notícias sobre a degradação de peças importantes do património português, o director do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) reconheceu não ter verbas para todas as obras que são necessárias nos imóveis de interesse patrimonial, da propriedade do Estado.
Edifícios históricos, como por exemplo o Castelo de Amieira do Tejo, erguido pelo pai de D. Nuno Álvares Pereira, estão fechados há anos por falta de condições de segurança e por falta de pessoal que vigie o monumento.
As relações entre as estruturas centrais e as autarquias– que podiam estar interessadas em garantir a possibilidade de visita destes equipamentos – são difíceis e muito burocratizadas.
O resultado está à vista e não é bom de se ver.
O Estado que não tem dinheiro para fazer a preservação do património é o mesmo que não tem verbas para fazer funcionar os Museus Nacionais de forma normal, mas que não se importa de desperdiçar dinheiro em operações de propaganda de gosto duvidoso. Em declarações ontem prestadas à TSF, o presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses alertou para o facto de “as poucas verbas existentes” terem sido canalizadas para “projectos muito discutíveis, como é o caso da exposição com amostras de peças do Museu Hermitage”.
A situação não é de agora, vem de longe, e costuma redundar num dilema: o dinheiro existente deve ir para a salvaguarda do património ou para o apoio à criatividade? Em boa parte esta é uma falsa questão porque, na realidade, a primeira questão, na área da Cultura, é rever o modelo de funcionamento e de financiamento existente, rever a captação de receitas e rever a forma como são gastas.
Na realidade aquilo que faz falta ao Ministério da Cultura não é mais um conjunto de prioridades de acção cultural ou ideias de génios iluminados, é a criação de instrumentos legais que reestruturem serviços, que facilitem articulação com autarquias, que autonomizem instituições, que fomentem a participação dos privados, que tornem o mecenato mais atractivo, que estabeleçam claros incentivos fiscais, que consigam fomentar parcerias em vez
de servir clientelas, e que proporcionem o desenvolvimento de um mercado sem o qual falar de indústrias criativas é apenas um acto falhado.
Manuel Falcão in "Meia Hora" - 27/2/08
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