domingo, 9 de dezembro de 2007

TEMPO DE NATAL

NATAL DA MINHA INFÂNCIA...
Quando chega a quadra do Natal, quantas vezes dou comigo de olhos fechados, a pensar no Natal a minha infância.
Fecho os olhos..., porque só fechando os olhos, consigo ver passar no meu pensamento, aquilo que foi o meu Natal.
E que saudades eu tenho...
Tenho saudades do Natal que era passado à lareira, a bebermos uma caneca de café e a comermos filhós que a minha mãe sempre fazia. E eram tão boas...
Ao fechar os olhos, consigo ainda sentir o cheiro do café e dos fritos, que pairava no ar, dando logo o típico ar de Natal.
O meu Natal, até aos 10 anos, em que vivia numa pacata aldeia do Alto Alentejo chamada Amieira do Tejo, era assim:
O nosso Natal era sempre passado em casa, com os meus pais, os meus irmãos e um tio da minha mãe que era solteiro e vivia só, então passava sempre o Natal connosco. Foi uma figura a que nos habituámos a estar sempre presente, como se fosse uma figura do presépio. Eu e os meus irmãos, gostávamos muito deste nosso tio, o “nosso tio Luís”, mais ainda porque ele nos dava sempre uns chocolatinhos e por vezes uma notinha, dizendo à minha mãe: “Toma lá, Maria, para comprares qualquer coisa que eles precisem!”
Que saudades eu tenho do tio Luís. Infelizmente, já cá não está.
Era uma quadra passada com grande tranquilidade. Não havia stress nem centros comerciais, não havia aquela “dor de cabeça” de pensar se aquele ou aquelagostará disto ou daquilo...
Não havia a preocupação de dar, só por que se podia receber. Não havia nada disso. Simplesmente, paz!
As”prendas” que os meus pais davam à família e às pessoas a quem deviam favores do dia a dia, eram umas couves, umas filhós ou uns enchidos e era quando era, não havia obrigações.
Nada mais fazia falta, pois existia o mais importante e que não era necessário comprar: a interajuda para o que fosse preciso e a amizade.
Por volta do meio do mês de Dezembro, saia ao campo, com os meus irmãos e o meu pai para apanhar o pinheiro de Natal, pois nessa altura ainda se podia fazê-lo e havia muitos. Outras vezes, era o meu pai que aparecia com ele em casa.
Também íamos apanhar musgo e o meu pai sabia sempre onde estava o melhor. Era uma alegria. Todos juntos, decorávamos o pinheiro e fazíamos o presépio.
O cheirinho do pinheiro e do musgo era único, nunca mais o senti. Logo aí começava o nosso Natal, até à noite da consoada e ao dia de Natal.
Chegada essa noite, juntávamo-nos à mesa para comer a tradicional couve portuguesa com batas, ovo e bacalhau. Bacalhau que nem sempre havia... mas não fazia mal. O estarmos ali juntos, a viver o “espírito de Natal” já era uma dádiva tão boa que superava qualquer falta que houvesse na mesa.
Terminada a ceia reuníamo-nos à volta a lareira a conversar, a beber café que era feito numa cafeteira à lareira e que tinha um cheirinho e um sabor como não há igual.
Também comíamos filhós, que a nossa mãe fazia com tanto carinho e, só por isso, sabiam tão bem.
A dada altura, eu e os meus irmãos íamos para junto do pinheiro e do presépio contemplá-los e cantar músicas de Natal.
Ansiosos, esperávamos a meia-noite, não para receber prendas, mas para beijar o Menino Jesus e colocá-lo no presépio.
A nossa árvore não tinha presentes por baixo, mas estava carregada de amor e de magia, a magia do Natal: paz, amor, família e Jesus!
Passada a meia-noite, a minha mãe mandava-nos para a cama e dizia-nos para deixarmos os sapatos debaixo do pinheiro, para que de manhã fôssemos ver o que é que o Menino Jesus nos tinha lá deixado.
Não imaginam a nossa felicidade quando chegávamos ao pé dos nossos sapatos e lá tínhamos, enrolados em papel pardo uns chocolatinhos em forma de sino, Pai Natal, pinhas e muitos outros. Singelos chocolatinhos que nos enchiam de felicidade. Com as suas pratas fazíamos separadores para os livros, alisando-as bem e quando as rompíamos ficávamos desesperados.
Era assim o meu Natal, recheado de paz e de amor, de sentimentos puros verdadeiros, não o Natal de bens materiais como se vê hoje.
Ainda me lembro, quando saia à rua, as pessoas me perguntavam: “Então, o que é que foi o teu Menino Jesus? O que é que tiveste no sapatinho?
E, não : o que é que o Pai Natal te deu?, a pergunta de hoje em dia.
Que pena que tudo isto passou, tudo isto se perdeu.
Hoje o meu Natal é bem diferente, envolvida, com outras pessoas, neste mundo de consumismo, de desperdício de tempo e de dinheiro, numa azáfama que muitas vezes só termina na véspera de Natal.
E pergunto-me, muitas vezes: Porquê? Porquê toda esta correria?
O Natal não é isto em que o tornámos. O Natal é momento de paz, altura de reflexão, é a família, é, na verdade, a espera de alguém que ainda pode trazer a paz ao mundo e aos nossos corações. Esse, alguém, é Jesus!
É por causa dele que o Natal existe; é por Ele que o celebramos e tão poucas vezes falamos dele.
Isto sim, isto é que é o Natal para mim e acho deveria ser para toda a gente...
Ainda vamos a tempo de o salvar, de fazermos renascer esta linda quadra que é o Natal e que foi a maior prova de amor que veio ao mundo: Jesus Cristo.
Vamos salvar o Natal? Depende de mim, depende de ti e de todos nós.
Ana Paula Horta